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Blog do Professor
A magia das histórias - que mistérios é esse?
Blog - Projeto de cordel Círculo de leitores Por Sil Augusto on 11/10/2009 18:12

Tenho ouvido muita gente dizer que a leitura é importante na educação infantil. Porque ela desenvolve a imaginação, porque a leitura é mágica para a criança. Para os professores com os quais já trabalhei, eu sempre perguntava: mas por que? Sim, por que a leitura parece mágica para a criança? Aparece do nada, como um coelho saído da cartola? Por que cria ilusão? O que faz a escrita parecer mágica? Emília Ferreiro também deve ter ouvido tais comentários porque ela responde muito bem a essa questão em um de seus textos. Vejam que interessante o que ela diz:

 

“O interpretante informa à criança, ao efetuar esse ato aparentemente banal que chamamos de um ato de leitura, que essas marcas têm poderes especiais: basta olhá-las para produzir linguagem. O ato de leitura é um ato mágico. O que existe por trás dessas marcas para que o olho incite a boca a produzir linguagem? Certamente é uma linguagem peculiar, bem diferente da comunicação face a face. Quem lê não olha para o outro, mas para a página (ou qualquer outra superfície sobre a qual as marcas foram realizadas). Quem lê parece falar para o outro, porém o que diz não é a sua própria palavra, mas a palavra de um Outro que pode ser desdobrada em muitos Outros saídos não se sabe de onde, também escondidos atrás das marcas. De fato, o leitor é um ator: empresta sua voz para o texto ser re-presentado (o sentido etimológico de ‘tornar-se a apresentar’). Portanto, o interpretante fala mas não é ele quem fala; o interpretante diz, porém o dito não é seu próprio dizer mas o de fantasmas que se realizam através da sua boca.  (...)

O interpretante-leitor é um ilusionista que tira dessa cartola mágica que é a sua boca os mais insuspeitos objetos-palavras, em um desenrolar de surpresas que parece infinito.

Parte da magia consiste em que o mesmo texto (ou seja, as mesmas palavras, na mesma ordem) torne a re-presentar-se diversas vezes, diante das mesmas marcas. Que existe nessas marcas que permite não só eliciar linguagem, mas também provocar o mesmo texto oral, uma e outra vez? O fascínio das crianças pela leitura e releitura da mesma estória tem a ver com esta descoberta fundamental: a escrita fixa da língua, controla-a de tal maneira que as palavras não se dispersam, não se desvanecem nem são substituídas umas pelas outras. As mesmas palavras, uma e outra vez; grande parte do mistério reside nesta possibilidade de repetição, de representação.”

 

(“Interpretação, intérpretes, interpretantes”. Piaget – Vygotsky, novas contribuições para o debate. Emília Ferreiro. Ed. Ática. Páginas 165 e 166)

 

E eu aqui fiquei pensando ... se é a escrita que é mágica e não a história, se o que parece mágico é a eterna capacidade de se repetir obs os mesmos signos as mesmas histórias, então o professor precisa é ler, mesmo, todas as histórias e não contar. Já pensaram nisso? Contar tem lá seus encantos, mas essa magia de que Emília Ferreiro fala, só o texto escrito pode proporcionar. E se é mesmo assim ... vamos então escolher os próximos textos que queremos ler para as crianças?

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Olha aí uma boa razão para gostar de contos de fadas
Blog - Projeto de cordel Círculo de leitores Por Sil Augusto on 29/9/2009 22:55
Chapeuzinho-Vermelho.jpg

Outro dia eu estava contando para a Josie, leitora nossa, aqui do blog, o que um livro precisa ter para pedir um lugar no círculo dos leitores. E hoje, eu quero pensar com vocês o que é que tem as histórias, os enredos de maneira geral, para que sejam tão queridos pelos leitores. Por que todas as crianças adoram a Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve? Que lastro é esse tão valioso que assegura a credibilidade e a confiança que se tem nas histórias por tantos e tantos séculos, atravessando fronteiras regionais e gerações? Sim, isso mesmo, escolhi falar dos contos tradicionais de fadas porque é um dos gêneros mais apreciados pelas crianças pequenas na educação infantil.

Mas, pensando bem, nem é preciso que eu fale sobre isso. Prefiro emprestar meu espaço aqui no blog para uma das maiores escritoras de literatura infanto juvenil, a Ana Maria Machado. Olha só o que ela diz:

“As histórias que a mãe e o pai contavam, pondo a gente no colo, sentado do lado na rede ou na beirada da cama. Quem contava aquelas coisas tão maravilhosas, daquela maneira tão carinhosa, só podia gostar da gente ... e as histórias ensinavam tanto ... Traziam a certeza da esperança, garantiam a vitória do mais fraco, aplacavam as angústias difusas, davam forma às bruxas fora da gente. Pelo que a mãe contava, a menina ficava sabendo que Chapeuzinho Vermelho pode ser comida pelos lobos nos bosques da vida e não há vovó que proteja, mas no fim ela ganha. João e Maria podem ser abandonados no fundo do mato, se enganar com a promessa dos mais velhos, ser obrigados à força a comer o que não querem, mas um dia põem a bruxa no fogo e quando ela grita: – Água, meus netinhos ... Eles podem ser malcriadíssimos e gritar: – Azeite, minha vozinha ... As histórias mostravam que Branca de Neve ficava mais bonita que a madrasta e, por mais que tivesse que lavar as escadarias do palácio, cozinhar e arrumar casa para sete anões, enfim, provar o tempo todo que sabia fazer limonada e não era imprestável, no fim ia acabar se salvando. Houve alguém mais porca e explorada do que a gata Borralheira ou Pele de Asno? E o que dizer de A Bela e a Fera, onde mesmo um bicho tão horroroso podia ser amado de ver-dade? Havia esperança ...”

(Para que é que presta uma menininha? Ana Maria Machado. O Mito da Infância Feliz. Ed. Summus. 1983. pág. 53)

Pois é, pessoal ... é por isso também – entre outros motivos que a gente pode discutir outro dia – é que as crianças querem ouvir contos de fadas. E pedem para recontar mais uma vez. E mais uma. E mais outra ... por isso eu digo aos escritores e editores que insistem em modificar os textos das histórias para que eles sejam mais pedagógicos, politicamente corretas, educati-vas e tudo o mais: por favor, não nos deixem perder a esperança! Pelo menos no mundo das histórias, deixem a princesinha viver feliz para sempre, ora bolas!  E quer saber de mais uma coisa? Deixem a Chapeuzinho em paz: ainda bem que a não tão pobre e ingênua menininha desobedeceu sua avozinha para deitar-se com o lobo e viver sua travessia de menina.  Já pensou? Passar o resto da vida pela boa e velha, tão conhecida estrada afora levando docinhos para a vovozinha? Ah, não! 


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O que é que esse livro tem?
Blog - Projeto de cordel Círculo de leitores Por Sil Augusto on 24/8/2009 19:13
A Josie, leitora do Blog, me contou em seu comentário que ela tentou ler o livro de Julio Verne para seu grupo de crianças, mas, não deu muito certo. Ela não me disse mais nada, mas eu fiquei intrigada com o assunto. A obra, sem dúvida, é interessante, mas, isso, apenas, não é suficiente para fazer uma leitura repercutir no círculo de leitores. O que faz, afinal, uma obra boa para entrar na roda de leitura de um grupo de crianças? O que é que ela tem? Eu convido você, leitor do blog, a trazer a sua experiência e nos ajudar a responder essa questão. Eu pensei o seguinte:

  • O livro, em primeiro lugar, tem que ser interessante em si mesmo, pela qualidade do argu-mento, da narrativa, do modo como as situações são apresentadas ao leitor, pela trama que cria, emoções que consegue evocar e que cativa a atenção de quem escuta, curiosamente movido pelo imaginário tecido nas palavras. Um livro bom, mesmo, em si, não porque ensina outros conteúdos. Eu, por exemplo, detesto os livros que, por exemplo, contam as histórias da sereia a pretexto de proteger os rios. Das lendas indígenas com o propósito de falar bem do índio, no dia dele, aquele, em abril ... nunca gostei disso e acho que não é bom porque faz as crianças pensarem que nós, adultos, só lemos para tirar das páginas algumas lições. E isso não é bem verdade, não é? Pelo menos não em todos os tipos de leitura.

  • Além de interessante, a linguagem também deve ser intrigante, deve provocar o leitor porque é capaz de fazê-los escutar coisas há muito conhecida de um modo como ele nunca ouvira antes. Modos mais poéticos, grotescos, metafóricos, diretivo, misterioso, engraçado, enfim, modos que não são usuais no dia-a-dia e que por isso mesmo, ampliam a nossa escuta e, por-tanto, nossa compreensão do mundo.

  • É importante que o livro tenha o seu lugar e que seja apresentado aos leitores que ainda não o conhecem. Que se mostre bonito, o que não quer dizer que tenha que ser novo ou coloridíssi-mo, por exemplo. Nada disso é imprescindível para compor uma certa aura do seu tempo, da sua idade, do contexto em que foi produzido, ainda que as imagens não sejam sempre colori-das, alegres, saltitantes. O envelhecido livro do sebo, com suas paginas frouxas de costura esgarçada, guarda a beleza que só vê quem reconhece a vitória da sua permanecia no tempo e das memórias dos muitos que já os exploraram. Mas também o brilho do papel novinho, da textura da boa gramatura dos quadrinhos de Will Eisner que apresenta princesas completa-mente renovadas.

  •  Mas, o mais importante de tudo isso, é que o livro seja compartilhado pelo professor que vai ler para o grupo: além das histórias que são ditas as crianças se interessam pelo adulto inter-pretante porque se inquietam e se encantam ao compreender, ainda que não totalmente, senti-dos ocultos que o adulto atribui àquilo que lê. Assim, se o professor ama um livro, deve contar aos alunos sobre como se expressa esse amor, porque ele aprecia tanto o que escolheu para seu grupo. E, por outro lado, se não gosta tanto, ao menos pode dividir suas inquietações com o que leu para que isso provoque o debate das crianças e que as ajude a organizar suas idéi-as, suas opiniões. 

Bom, tudo isso que eu pensei para o post de hoje ajudam a Josie a responder a apenas uma questão: o que é que o livro tem para merecer entrar no círculo dos leitores. Mas, resta, ainda, discutir o como pode ser lido, ainda mais no caso de uma obra como a de Julio Verne que pode demorar dias e dias. Mas isso é assunto para outro dia.
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O baú de Sherazade
Blog - Projeto de cordel Círculo de leitores Por Sil Augusto on 25/8/2008 22:09

Vozes do deserto.jpg

 

O relato do projeto de cordel chegou ao fim, mas nem só de poesia vive a imaginação dos alunos. No relato que hoje se inicia, vou contar sobre uma proposta de trabalho para a formação de leitores: o Círculo de Leitores. Sim, esse foi o tema vencedor da nossa votação. Entre Vida no Deserto, Mil e uma Noites e Círculo de leitores, esse último foi o vencedor e por isso, nas próximas páginas, vou contar como podemos constituir a partir da escola, todas as condições necessárias para a formação do hábito e do gosto pela leitura.

 

Mas, para iniciar esse relato, darei uma canja aos que votaram nas outras opções: mesmo sabendo que não vou agora contar sobre esses outros projetos, quero convidar vocês, leitores, a entrar na roda das narrativas árabes, na atmosfera da vida no deserto, ambiente perfeito para o surgimento das mil e uma noites que se iniciaram nas núpcias de Sherazade.

 

Todo mundo conhece, ou pelo menos já ouviu falar, da corajosa princesa árabe que se oferecera para casar com o vizir a fim de salvar todas as outras esposas que eram sumariamente assassinadas ao amanhecer. Sherazade, a sábia, no entanto, livrou-se desse destino. Noite a noite ela enganou o vizir seduzindo-o com uma linda história que nunca acabava, sempre anunciando mais uma outra história que se ligava àquela e depois outra, e mais outra ... E assim, recorrendo à sua inteligência, às palavras e à imaginação, a princesa salvava o seu dia seguinte. Por mil e uma noites ela adiou sua morte encomendada, tamanha a curiosidade do rei que não poderia viver sem saber o próximo capítulo, sem ouvir mais uma vez as palavras de sua hábil esposa, até o dia em que, apaixonado e confiante, o vizir anunciou a liberdade da princesa e o começo de uma nova era naquele reino.

 

Nós, leitores, que não vivemos naquele harém, podemos, ainda assim, saber o que se passava: basta ler as histórias do livro clássico de mesmo nome. Mas alguém já se perguntou o que se passava durante os dias da Sherazade? O que ela fazia nos mil dias que antecediam as mil noites de histórias? Como ela lidava com o medo da morte, as limitações de uma vida cativa e ameaçada, a exigência de buscar mais e mais lindas histórias capazes de enganar o vizir? 

 

Isso tudo que ninguém sabe é o que está nas páginas do livro de Nélida Piñon, Vozes do deserto. À noite, antes de se deitar, leia um trechinho da autora e deixe-se levar:

 

Ao vislumbrar o mercado pela primeira vez, Sherezade identificara de imediato a geografia real das suas histórias. Através daquele cenário turbulento, invadido pelas imprecações populares, permeando por cheiros, olores, armas desconhecidos, apalpava o coração a arte de fabular.

 

Sherazade retornava dessas fugas com sensação de desamparo. Intuindo-lhes os sobressaltos, que a menina não aprendera ainda a filtrar, Fátima envolvia-a contra o peito, alisava seus cabelos, assegurando-lhe que, a despeito das vertigens e das comoções, não iria desfalecer. Só lhe pedia que não guardasse no rosto, à vista de todos, as pegadas da insubordinação.

 

Seguindo a orientação da ama, naqueles dias Sherazade refugiava-se no quarto, onde fazia as refeições, a pretexto de não estar bem. O pai, envolvido nos afazeres administrativos do califado, nunca percebera as transformações que afetavam a filha. A própria Dinazarda, em geral atenta, informada da sua indisposição, respeitava-lhe o pedido.

 

Com a ajuda de Fátima, refazia o caminho dos sentimentos nos dias subseqüentes. Ia desmanchando no corpo as impressões que as experiências lhe haviam deixado. Não se sentia obrigada a provar ao Vizir, ou à irmã, os acertos advindos da visita às terras impregnadas de miséria, ilusões, gritos plangentes. Ciosos de sua estirpe, o Vizir não perdoaria a filha em meio à turba, sob a ameaça de compuscar-se.

 

Sua aprendizagem naqueles anos se acelerara. Com Fátima trazendo-lhe flores, insetos empalhados, doces, decidida a fornecer-lhe o precioso bem de conhecer o mundo. Não se furtando a levá-la às escondidas a mercado, sempre que Sherazade lhe pedia, mesmo tendo que pagar com a vida tal desobediência do Vizir.

 

(Vozes do deserto, Nélida Piñon, Editora Record.)

 

 E então, gostaram? Assim se forma um círculo de leitura: alguém lê um livro que gostou muito, indica para o outro, que conta para alguém que lê mais e mais. Querem saber como esse hábito pode entrar na sala de aula e como pode criar um contexto dos mais interessantes para a construção de ocmportamentos leitores e a aprendizagem da linguagem escrita? Então, venha ler o blog do professor. Na semana que vem eu contarei como podemos iniciar juntos esse trabalho.

 

Enquanto isso, comentem esse post indicando um outro livro que vocês tenham gostado muito, mas muito mesmo! Vamos compartilhar nosso gosto e as nossas dicas. 

 

Até lá!

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Bichos estranhos e seres fantásticos do cordel
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 5/8/2008 21:35

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Como pode se notar, os objetivos do projeto de cordel são essencialmente os relacionados à linguagem. Mas a linguagem acabou nos servindo como veículo para saber outras coisas sobre a cultura nordestina, para nos inserir nos demais aspectos da cultura brasileira, tais como a música e a arte das gravuras.

 

Em meio a tantos estudos tivemos a sorte de participar do evento Encontro da Cultura Brasileira, que aconteceu na cidade de São Paulo. Levamos as crianças para visitarem a exposição O Cordel e a Arte dos Livros. Todos queriam ver os cordéis e, principalmente, comprar alguns, pois sabem que não é fácil encontrá-los por aí, nas livrarias. Escolhemos um de cada tipo para a coleção da escola e, depois, cada um escolheu um para si. Foi bonito ver o cuidado que as crianças tiveram com esse material simples, sem grandes sofisticações, mas que para eles já havia adquirido grande importância.

 

O monitor da exposição nos contou algumas coisas sobre mestre Borges, favorito do grupo. Mas, um pouco frustradas por não poder vê-lo, as crianças descobriram o endereço no verso do cordel e pediram para que eu escrevesse uma carta. Gostaram da idéia e analisaram folheto por folheto, na tentativa de ler os nomes dos autores, insistindo para eu anotar! Por eles, eu certamente passaria o mês escrevendo cartas para o nordeste pedindo cordel.

 

O trabalho com os cordéis também possibilitou um grande investimento na produção de desenhos e de outras representações infantis. Os seres fantásticos como Pavão Misterioso, Boi Misterioso, os dragões e os monstros de todas as histórias que cantamos, povoaram as conversas e a imaginação das crianças por muito tempo, servindo como um propósito para uma pesquisa das ilustrações. Para conhecer representações variadas desses seres, as crianças foram convidadas a pesquisar nos livros de gravura, nos materiais gráficos que disponibilizamos em um canto da sala de aula.

 

As crianças passaram a manter contato com muitas imagens, cenas das festas populares, dos personagens das histórias, dos santos e do cotidiano do povo. Além da apreciação estética, elas também precisaram fazer as imagens, e por isso estudamos as técnicas de impressão mais usadas pelos mestres. Depois das pesquisas, dinossauros-calangos e outros seres afins, dragões e pavões começaram a surgir representações curiosas nos desenhos, nas modelagens em argila e nas gravuras que as crianças produziam no ateliê.

 

Parte dessa produção foi exposta na banca de cordel que tínhamos na sala, recheadas com os textos e as ilustrações, impressões típicas, tais como as xilogravuras originais que mantínhamos em classe, como as que se faz em Pernambuco.

 

Eu não escondo que adorei este trabalho, porque além de gostar de viajar pelo Brasil, eu me divirto muito, dou boas risadas com as aventuras do João Valente, com as histórias do Pavão Misterioso, do Príncipe do Barro Branco e a Princesa do Vai não Torna, e todas as outras, em que há sempre muita ironia, como no caso de Satanás Invade a Terra em Discos Voadores ou o Casamento da Porca com Zé da Lasca. Mas, o que eu realmente gosto, é promover oportunidades para que os adultos dividam seus interesses com as crianças, os interesses reais, da vida de cada um, e não aqueles feitos exclusivamente para fins escolares.

 

Gostaram? Caso queiram saber mais sobre Borges ou queiram ver como se faz a gravura do cordel, cliquem nesse link e boa viagem!

http://www.100anosxilogravuranocordel.com.br/feitura.html

 

E assim vou terminando o relato desse projeto. Na semana que vem trarei um novo projeto para apresentar a vocês. Aproveito a oportunidade para convidá-los a divulgar nesse blog seus interesses e as práticas educativas de sua autoria. Escreva para o portal: alemdasletras@avisala.org.br

 

Até a próxima semana.

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Escolha e vote
Blog - Projeto de cordel Você decide!! Por Sil Augusto on 21/7/2008 19:34

 

 

Você gostou de ler o relato do projeto de cordel? Então ajude o portal a escolher o próximo projeto a ser comentado do Blog do Professor. O tema vencedor ocupará as próximas páginas contando experiências bem sucedidas e sugestões para quem quiser desenvolver esse trabalho em sua escola. Vote!

 

  1. As mil e uma noites – ler para apreciar e para conhecer a diversidade das narrativas clássicas orientais
  2. A vida no deserto – um projeto para conhecer os textos científicos e curiosidades da vida animal
  3. Círculo de leitores – a formação de comportamentos leitores na roda diária de leitura

Escolha e vote escrevendo comentando esse post. Aguardamos sua resposta.

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A língua escrita e a linguagem do cordel
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 21/7/2008 19:16

hist_cordel_livretos6.gif

 

Uma das mais importantes qualidades do projeto é o potencial que ele tem para contextualizar diferentes aprendizagens. O projeto do cordel, por exemplo, oferece, oportunidades para ler por conta própria nas situações já comentadas aqui no blog. Mas, além disso, ele também amplia o conhecimento das crianças sobre as variantes lingüísticas existentes em nosso país.

 

Muita gente pensa que o português falado e escrito em sua norma culta é o correto e tudo o que foge dessa regra, é errado. Isso também vale para o vocabulário: o que não se reconhece em uma dada cultura, não é valorizado como uma típica expressão da língua portuguesa. Assim, textos como o que vem a seguir, por exemplo, seriam considerados errados:

 

Se um dia nóis se gostasse

Se um dia nois se queresse

Se nois dois se empareasse

Se juntinho nois dois vivesse

Se juntinho nois dois morasse

Se juntinho nois dois drumisse

Se juntinho nois dois morresse

Se pro céu nois assubisse

Mas, porém se acontecesse de São Pedro não abrisse

a porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice

E se eu me arriminasse

E tu com eu ensistisse

Pra que eu me arressolvesse

E a minha faca puxasse

E o bucho do céu furasse

Talvez que nós dois ficasse

Talvez que nós dois caísse

E o céu furado arriasse

E as virgens todas fugisse

(Ai se sesse. Cordel do fogo encantado)

 

Dá para imaginar que isso não tenha valor algum do ponto de vista da expressão de uma língua? Mas, hoje os lingüistas discutem esse tema: a complexidade da língua portuguesa nas inúmeras regras que organizam as variantes lingüísticas no país.

 

De fato, se consideramos a norma culta da língua, aquela que aprendemos na escola e que está tão bem organizada nas gramáticas, esse texto teria inúmeros erros porque não se lê comumente “se sesse”. Não é assim que se conjuga o verbo ser. No entanto, isso vale apenas para uma norma da língua, no padrão culto. Mas a expressão da nossa língua extrapola esse padrão e sobrevive e se diversifica seguindo outras regras, sem que por isso tenham menos valor. Muito pelo contrário: no exemplo citado, como poderíamos expressar de modo tão singelo o assombro do além vida quando tudo se resolve na contingência do “se”?

 

Muitos professores perguntam se não é prejudicial às crianças que estão aprendendo a ler e a escrever, tomar contato com esse tipo de expressão cantada. Entendemos que não: é importante que as crianças tomem contato com essa complexidade e que saibam quando e como usar as diferentes regras da língua. O segredo está em saber qual é a situação comunicativa e a norma relativa a ela. Por exemplo, quando elas escrevem ou ditam um texto formal, devem utilizar a norma culta. Quando estão em um contexto mais informal de comunicação, podem ter licença para burlar determinadas regras ou para recorrer a uma gíria ou expressão idiomática. Um bom e proficiente usuário da língua deve saber expressar-se de muitos modos. Por isso, entendemos que o contato com essas outras variantes da língua não é um problema se for tratado sem preconceito e se permitir que as crianças aprendam a se colocar tanto oralmente quanto por escrito, nas mais diferentes ocasiões.

 

Além do mais, vale lembrar, que há textos de todo o tipo nas páginas dos cordéis. Há textos clássicos que guardam ainda expressões próximas do português arcaico, por exemplo, e que são grafados rigorosamente segundo a norma culta da língua. Mesmo assim, trazem inúmeras palavras que não são comumente reconhecidas. Essa é uma excelente oportunidade para conhecer como se fala em uma outra cultura.

 

Nesse projeto, ao ler os cordéis, as crianças encontravam inúmeras palavras desconhecidas e que talvez por esse motivo, soassem tão engraçadas para elas. Então, durante a cantoria, as crianças separavam as palavras que não conheciam, que não são muito freqüentes no nosso vocabulário, tais como: candeeiro, cabaça, vereda, catinga, e outras que foram compondo uma grande lista. A tarefa era procurar o significado dessas palavras para constituir o Dicionário das palavras difíceis do cordel.

 

Desse modo, o projeto vai criando muitas oportunidades para aprender não apenas a ler e a escrever convencionalmente, refletindo sobre as regras do sistema de escrita, como também colabora para a formação de um falante da língua portuguesa plural e muito mais informado. Não é um bom propósito a se almejar?

 

E se você gostou dessa discussão sobre as variantes lingüísticas, leia os textos de Marcos Bagno: http://www.marcosbagno.com.br/arq_textos.htm

 

Aproveite um tempinho para aproveitar um pouco mais do Cordel do fogo encantado: http://br.youtube.com/watch?v=RJQC1w0yRbk

 

Até a semana que vem!

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A norma culta e a linguagem do cordel
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 15/7/2008 22:27

cordel3.jpg

 

Uma das mais importantes qualidades do projeto é o potencial que ele tem para contextualizar diferentes aprendizagens. O projeto do cordel, por exemplo, oferece, oportunidades para ler por conta própria nas situações já comentadas aqui no blog. Mas, além disso, ele também amplia o conhecimento das crianças sobre as variantes lingüísticas existentes em nosso país.

 

Muita gente pensa que o português falado e escrito em sua norma culta é o correto e tudo o que foge dessa regra, é errado. Isso também vale para o vocabulário: o que não se reconhece em uma dada cultura, não é valorizado como uma típica expressão da língua portuguesa. Assim, textos como o que vem a seguir, por exemplo, seriam considerados errados:

 

Se um dia nóis se gostasse

Se um dia nois se queresse

Se nois dois se empareasse

Se juntinho nois dois vivesse

Se juntinho nois dois morasse

Se juntinho nois dois drumisse

Se juntinho nois dois morresse

Se pro céu nois assubisse

Mas, porém se acontecesse de São Pedro não abrisse

a porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice

E se eu me arriminasse

E tu com eu ensistisse

Pra que eu me arressolvesse

E a minha faca puxasse

E o bucho do céu furasse

Talvez que nós dois ficasse

Talvez que nós dois caísse

E o céu furado arriasse

E as virgens todas fugisse

(Ai se sesse. Cordel do fogo encantado)

 

Dá para imaginar que isso não tenha valor algum do ponto de vista da expressão de uma língua? Mas, hoje os lingüistas discutem esse tema: a complexidade da língua portuguesa nas inúmeras regras que organizam as variantes lingüísticas no país.

 

De fato, se consideramos a norma culta da língua, aquela que aprendemos na escola e que está tão bem organizada nas gramáticas, esse texto teria inúmeros erros porque não se lê comumente “se sesse”. Não é assim que se conjuga o verbo ser. No entanto, isso vale apenas para uma norma da língua, no padrão culto. Mas a expressão da nossa língua extrapola esse padrão e sobrevive e se diversifica seguindo outras regras, sem que por isso tenham menos valor. Muito pelo contrário: no exemplo citado, como poderíamos expressar de modo tão singelo o assombro do além vida quando tudo se resolve na contingência do “se”?

 

Muitos professores perguntam se não é prejudicial às crianças que estão aprendendo a ler e a escrever, tomar contato com esse tipo de expressão cantada. Entendemos que não: é importante que as crianças tomem contato com essa complexidade e que saibam quando e como usar as diferentes regras da língua. O segredo está em saber qual é a situação comunicativa e a norma relativa a ela. Por exemplo, quando elas escrevem ou ditam um texto formal, devem utilizar a norma culta. Quando estão em um contexto mais informal de comunicação, podem ter licença para burlar determinadas regras ou para recorrer a uma gíria ou expressão idiomática. Um bom e proficiente usuário da língua deve saber expressar-se de muitos modos. Por isso, entendemos que o contato com essas outras variantes da língua não é um problema se for tratado sem preconceito e se permitir que as crianças aprendam a se colocar tanto oralmente quanto por escrito, nas mais diferentes ocasiões.

 

Além do mais, vale lembrar, que há textos de todo o tipo nas páginas dos cordéis. Há textos clássicos que guardam ainda expressões próximas do português arcaico, por exemplo, e que são grafados rigorosamente segundo a norma culta da língua. Mesmo assim, trazem inúmeras palavras que não são comumente reconhecidas. Essa é uma excelente oportunidade para conhecer como se fala em uma outra cultura.

 

Nesse projeto, ao ler os cordéis, as crianças encontravam inúmeras palavras desconhecidas e que talvez por esse motivo, soassem tão engraçadas para elas. Então, durante a cantoria, as crianças separavam as palavras que não conheciam, que não são muito freqüentes no nosso vocabulário, tais como: candeeiro, cabaça, vereda, catinga, e outras que foram compondo uma grande lista. A tarefa era procurar o significado dessas palavras para constituir o Dicionário das palavras difíceis do cordel.

 

Desse modo, o projeto vai criando muitas oportunidades para aprender não apenas a ler e a escrever convencionalmente, refletindo sobre as regras do sistema de escrita, como também colabora para a formação de um falante da língua portuguesa plural e muito mais informado. Não é um bom propósito a se almejar?

 

E se você gostou dessa discussão sobre as variantes lingüísticas, leia os textos de Marcos Bagno: http://www.marcosbagno.com.br/arq_textos.htm

 

Aproveite um tempinho para aproveitar um pouco mais do Cordel do fogo encantado: http://br.youtube.com/watch?v=RJQC1w0yRbk

 

Até a semana que vem!

 

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Trocando figurinhas e folhetos
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 3/7/2008 16:55

cordel6.jpg

 

Algumas pessoas têm me pedido dicas de onde comprar ou emprestar os folhetos de cordel, além de indicações de livros e outros materiais para conhecer mais sobre a cultura do cordel e a linguagem da poesia popular. Pois então, vamos lá! A seguir, uma lista de livros e de locais em todo o Brasil para quem quiser começar sua coleção de cordel.

 

Livros para saber mais

 

A Pedra do Meio-Dia ou Artur e Isadora – Literatura de Cordel, Bráulio Tavares. Ed. 34. Tel.: (11) 3032-6755

Assim Falava Lampião, Fred Navarro. Ed. Estação Liberdade. Tel. (11) 3661-2881

A Notícia na Literatura de Cordel, Joseph M. Luyten. Ed. Estação Liberdade. Tel. (11) 3661-2881

Lagartixas Verdinhas pelo Chão, Patativa do Assaré. Ed. Cortez. Tel.: (11) 3864-0404

Patativa Assaré – O Poeta Passarinho, Fabiano dos Santos. Ed. Demócrito Rocha. Tel.: (85 255-6176)

História do Brasil em Cordel, Mark Curran. Ed. da Universidade de São Paulo (EDUSP). Tel.: (11) 3091-2911

Cordel na Sala de Aula, Hélder Pinheiro e Ana Cristina Marinho Lúcio. Livraria Duas Cidades. Tel.: (11) 3331-5134 / 3331-4702

Biblioteca de Cordel, Vários Autores. Ed. Hedra. Tel.: (11) 3097-8304

12 Folhetos de Cordel, Marcelo Soares. E-mail: marceloalvessoares@yahoo.com.br

 

Onde encontrar cordel

 

Bezerros - PE

- José Borges. Av. Major Aprígio da Fonseca, 420. CEP: 55660-000

Campina Grande - PB

- Apolônio Alves dos Santos. Rua Eduardo Correia Lima, 12 - Quadra 95 - Conjunto Álvaro Gaudêncio de Queiroz - Bodocongó. CEP: 58108-325

Caruaru - PE

- Olegário Fernandes da Silva. Museu do Cordel - Feira de Caruaru

Crato - CE

- Josenir Lacerda. Rua José Carvalho, 168

Fortaleza - CE

- Tupynanquim Editora. Caixa Postal 717 - Agência Central. CEP 60001-970. Tel (85) 217-2891. E-mail: kleviana@ig.com.br

Patos - PB

- Antônio Américo de Medeiros. Barraca Santo Antônio, 267 - Mercado Central de Patos. CEP: 58700-120

Recife -PE

- Folhateria Cordel. Rua João Samuel da Costa, 13 - Cohab - Timbaúba. CEP: 55870-000. E-mail: marceloalvessoares@yahoo.com.br

Rio de Janeiro - RJ

- Academia Brasileira de Cordel. Rua Leopoldo Fróes, 37 - Santa Teresa. CEP: 20241-330. Tels.: (21) 2232-4801 / 2221-1077

- Feira de São Cristóvão. Campo de São Cristóvão. Tels.: (21) 3860-9976 / (21) 3860-9862. Site: www.feiradesaocristovao.art.br. E-mail: marketing@feiradesaocristovao.com.br

São Paulo - SP

- Editora Luzeiro. Rua Almirante Barroso, 730. CEP: 03025-001. Tels.: (11) 292-3188/6292-3188

- Boulevard.São João. Rua São Bento, 465 - Praça do Correio – Centro. Com o cantador e cordelista João Cabeleira

 

Que tal? Não dá vontade de colecionar?

 

Agora, convido você, leitor, a também trocar figurinhas conosco sobre esse acervo. Escreva um comentário (no canto inferior, clique sobre comentários) e diga onde você costuma encontrar cordel em sua cidade. Caso tenha lido algo sobre o assunto recentemente, coloque aqui no blog sua sugestão.

 

Até breve!

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O que uma criança precisa viver para aprender a ler
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 25/6/2008 15:33

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“Tudo o que está pendurado aqui é cordel, se você não sabe o que é cordel, cordel é uma história que se lê cantando”, disse uma das crianças da turma, explicando aos pais o que, afinal, ela estava estudando na escola.

 

É claro que para saber que cordel é uma história que se lê cantando, ela precisou participar de muitas rodas em que o professor leu para ela. Mas, além de saber como se lê, as crianças dessa turma também precisaram aprender a ler o que estava escrito em cada linha de cada estrofe. É claro que a maioria delas ainda não sabia ler por conta própria no início do projeto, mas, as condições dadas foram suficientes para que muitas delas pudessem exercitar a leitura sem saber ler, procurando “adivinhar” o que estava ali escrito, tentando ajustar a recitação do texto que ela sabia de cor ao que estava grafado no folheto que ela tinha em mãos.

 

Quais eram, então, as condições asseguradas para todo o grupo? Trata-se de um conjunto de ações intencionalmente organizadas pelo professor:

 

·         ler diariamente, oferecendo-se como modelo para as crianças;

·         assegurar-se de que as crianças apreciam e conhecem intimamente partes dos textos favoritos, sabem de cor ou de coeur, (coração) como dizem os franceses.

·         disponibilizar os textos para que as crianças o acessem por conta própria, em momentos previstos para isso na escola e também em casa, quando é possível tomar os folhetos emprestados;

 

Essas condições, por si só, serão suficientes para muitas crianças que estão aprendendo a ler. Para outras, não. Como a leitura e a compreensão do que se lê depende de uma construção interna do sujeito, é provável que nem todas as crianças da sala aprendam ao mesmo tempo e nem que saibam as mesmas coisas. É por isso que o professor precisa observar a atividade leitora das crianças e, muitas vezes, organizar propostas novas, que as ajudem a enfocar os problemas da escrita para pensar sobre elas.

 

Há algumas possibilidades que o professor pode pensar a partir dessa situação. Por exemplo:

 

·         Em um dia combinado, o professor pode propor que as crianças leiam os folhetos em duplas. Nesse caso, ele pode compor os agrupamentos segundo alguns critérios didáticos: uma criança que já lê com uma que está quase chegando lá. Crianças que estão utilizando diferentes estratégias para ajustar a fala à escrita e que podem ganhar com a análise desses dois modos de tratar o texto.

·         Pode, ainda, propor que as crianças ilustrem e levem para casa a estrofe mais divertida do cordel favorito. O importante, nessa proposta, não é a ilustração, mas sim a reconstrução do texto. Para isso, o professor pode oferecer a estrofe em versos separados, linha a linha. Tudo escrito em letra bastão que é a mais fácil de consultar. A tarefa das crianças seria, então, organizar a ordem dos seis versos que elas já sabem de cor. Podem trocar as produções entre elas para checar o ordem pensada pelos demais colegas, discutirem as difereças até que cheguem à uma conclusão de consenso do grupo todo. Por fim, podem colar os versos e ilustrá-lo.

 

Vale lembrar que o que faz as crianças aprenderem não é a repetição dessas propostas. Levar as idéias para a escolas e repeti-las à exaustão, “aplicando as atividades”, como muitos professores dizem, ajuda pouco as crianças. O que faz a diferença são as condições em que as crianças podem exercer a atividade leitora, assegurando as melhores ocasiões para pensar sobre a escrita, checar suas hipóteses comparando-as com as dos colegas.

 

Nas próximas páginas posso discutir assuntos diferentes, a depender do interesse dos meus queridos leitores. Caso apareçam dúvidas sobre essas propostas ou pedido por mais sugestões desse tipo, vamos continuar discutindo algumas outras atividades e intervenções. Até lá!

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Ajustar a fala à escrita, desafio de quem lê cordel
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 17/6/2008 20:00

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Todos sabem que para as crianças se alfabetizarem plenamente, precisam ter um contato intenso com os textos. Mas que tipo de contato é esse? E que tipo de texto elas precisam?

 

O planejamento do trabalho de alfabetização pressupõe a escolha da qualidade e da quantidade de textos, mas também uma certa ordenação. É importante decidir por onde começar, o que ler primeiro, como ler, o que deve ser disponibilizado na sala etc. No caso desse projeto, consideramos alguns critérios de escolha dos autores e dos tipos de cordel que apresentaríamos às crianças. Escolhemos muitos clássicos, textos de diferentes tipos e funções. Os folhetos de cordel foram trazidos para a sala e passaram a "morar" ao lado da estante dos demais livros, num varal onde ficaram pendurados à altura das crianças. Alguns eram realmente curtos e de fácil memorização, mesmo porque, o modo com as rimas são construídas, ajuda o leitor a memorizá-las.

 

Apresentamos também textos bem pequenos e muito diferentes dos romances clássicos, obras de um autor de cordel contemporâneo, aliás, o mais velho cordelista vivo: J. Borges. O autor intitulou a coleção de “Cordel para Crianças”. Escolhemos essa coleção porque, segundo nossa avaliação, um forte potencial para ser assimilado como parte do repertório de memória do grupo. E por que achávamos que esse seria um bom repertório para o grupo? Não apenas porque os textos eram curtos, mas principalmente, porque eram muito divertidos e bem construídos.

 

A coleção do Borges logo virou uma febre. Assim, o primeiro movimento das crianças foi para formar a preferência literária. Nas rodas de leitura elas podiam indicar os cordéis que gostariam de ler. E de tanto que pediam para ler, e ler de novo e ler mais uma vez, acabaram por memorizar trechos dos favoritos, principalmente do início. O campeão de audiência da turma era A Cachorra Matraca e O Galo de Honório. As crianças morriam de rir ao ouvir as passagens que apresentavam palavras que para eles eram “palavrões”, termos que não se usa normalmente no cotidiano. Além do que, a história, na verdade, é um caso engraçado. Diogo, Noah e Ricardo passaram a ser assíduos freqüentadores das rodas de leitura e, em pouco tempo, a história foi memorizada. Théo e Maurício passaram a improvisar outras histórias partindo daquela estrutura rítmica e do mote principal, com eventos engraçados e constrangedores. Já Mariana, Bruna e Marina gostavam de repetir as histórias de princesas como a da linda Creusa, que presa na torre só aparece na janela uma vez por ano para mostrar toda sua beleza, ou ainda a Princesa da Pedra Fina, cujo encanto foi quebrado por um valente príncipe. Mas claro que se houvesse uma rodinha em que alguém prometesse cantar O Galo de Honório lá estavam elas.

 

Com a concorrência de tantos novos folhetos, as crianças começaram a apelar para os amigos que tinham autonomia para ler o texto para um pequeno grupo que se aboletava diante do cordão estendido no canto da sala, onde deixávamos pendurados os cordéis.

 

Isso criou uma condição ótima para todo o grupo que estava aprendendo a ler: todos gostavam muito de ouvir as leituras, tinham os textos em mãos e sabiam trechos de memória. Ficava, então, a tarefa de ajustar o falado ao escrito, orientando-se pelas estrofes, seguindo o modelo dos amigos e do próprio professor que lia para a sala. A curiosidade e o desejo da criança que quer ler, e as condições necessárias para o fazê-lo são os dois pontos que unem o círculo dos leitores recém alfabetizados. Assim, as crianças foram aos poucos regulando o ritmo da leitura a cada linha do poema, constatando algumas regularidades nos encontros daquilo que falamos àquilo que se escreve, constituindo uma experiência leitora das mais relevantes.

 

E você, leitor, já pensou em situações semelhantes para criar um ambiente propício à alfabetização? Pensou sobre as tantas possibilidades de leitura a partir de textos que se sabe de memória? Traga suas experiências para esse blog. Na próxima página, vou apresentar algumas outras situações que os professores podem fazer para ajudar a criança a ler por conta própria a partir dos textos que sabe de cor.

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Estranhar, primeiro passo para conhecer
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 7/6/2008 15:04

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Achar que uma coisa é estranha, por mais estranho que pareça, é uma coisa boa! Sim, é uma coisa boa, pois normalmente estranhamos o que não conhecemos, o que não nos é familiar ou o que é muito diferente dos nossos padrões de gosto, de comportamento, etc. De todo modo, ele abre uma porta aberta para a curiosidade. Quem estranha pode, no momento seguinte, construir um juízo de valor preconceituoso caso tente ajustar nas suas tão conhecidas categorias, uma manifestação que não cabe naquela gaveta. Mas, também tem a chance de aprender a suspender o juízo e assumir uma atitude investigativa para compreender o que há de estranho no observado e por que aquilo provoca tais sentimentos. Assim, conhecer o estranho, de certo modo, nos permite conhecer mais sobre nós mesmo. Eu acho que é esse o movimento que nós, educadores, tentamos alimentar: apresentar o novo, sustentar o desconforto de um grupo que estranha, acolher as dúvidas e acompanhar o grupo em percurso cujo fim é sempre conhecer.  

O projeto de cordel, por exemplo, cria essa atmosfera ótima para estranhar. Não só aqui no sul! A professora Elça, de Caraúbas, no Rio Grande do Norte, comentou aqui no blog que sua cidade tem um projeto que se chama Viola na Escola. Lá – mas que sorte! – os repentistas vão às escolas e fazem oficinas com os alunos. Ela conta que no início eles tinham preconceito, riam dos repentistas, mas depois se encantavam com os versos e a criatividade. O comentário era curtinho, ela não contou mais nada, mas eu imagino que essa mudança não se passou de um dia para o outro e que, certamente, é fruto do trabalho de toda a escola e também dos repentistas.

 Eu penso que há diferentes motivos para essa mudança de comportamento: o costume, o puro gosto e a crítica. Pode ser que os alunos se acostumem e, de tanto ouvir, acabaram por absorver e se habituaram àquela sonoridade, como parte do ambiente cotidiano. Há também os que, mesmo estranhando, simplesmente gostam do som, das palavras, das memórias que possivelmente lhes ocorram. Mas, também pode ser que eles tenham aprendido muito sobre aquela manifestação, por isso passaram a compreender e valorizar. E no caso do cordel, de fato, aprender como se faz e como se lê não é nada fácil, mas é muito interessante, uma experiência que se assemelha aos jogos que nos colocam regras e desafios. Quer ver como é? Então, leio o trecho que eu selecionei para você, de Bráulio Tavares, um especialista em cordel. Ele analisa a composição dos versos de um dos mais importantes e famosos textos de cordéis, um clássico que todo mundo conhece: Romance do Pavão Misterioso, de José Camilo de Melo. Veja só como se faz a contagem das sílabas dos versos mais comuns no cordel.

A sextilha é feita de seis versos de sete sílabas. A contagem de sílabas num verso varia grandemente, de acordo com a habilidade de quem o recita. O bom leitor de versos em voz alta percebe instintivamente, mesmo num texto que vê pela primeira vez, que sílabas devem ser elididas, ou “engolidas”, para que o verso encaixe na métrica. O poema de Castro Alves O Navio Negreiro! começa com uma elisão desse tipo: “Stamos em pleno mar!...”.

 

O verso de sete sílabas tem algumas acentuações mais freqüentes, mais típicas. Devemos lembrar que os folhetos nascem dentro de uma cultura que os identifica fortemente com os cantadores de viola ou repentistas (um escritor de folhetos não é necessariamente um violeiro, e vice-versa). O fato de o cordel ser rigidamente escrito em sextilhas faz com que qualquer melodia (ou “toada”, como dizem os cantadores) feita para uma sextilha possa ser usada para “cantar” os folhetos.

 

Quem recita ou lê uma sextilha já tem na memória o ritmo sugerido por essas “toadas”, e tenta fazer a leitura de modo a acomodar os versos dentro dessa cadência musical.

 

Veja-se por exemplo a primeira sextilha do Pavão Misterioso:

 

Eu vou contar a história

Do pavão misterioso

Que levantou vôo da grécia

Com um rapaz corajoso,

Raptando uma condessa

Filha de um conde orgulhoso

 

Destacando-se as sílabas fortes, podemos ler o verso assim, em voz alta:

 

            eu-vou-con-TAR, a-his-TÓ (ria)

            dum-pa-VÃO, mis-te-ri-Ô (so)

            que-le-van-TOU, vou-da GRÉ (cia)

            com-um-ra-PAZ, co-ra-JÔ (so)

            ra-pi-TAN, du-ma-con-Dês (as)

            fi-lha-DUN, con-dór-gu-LHÔ (so)

 

Algumas liberdades estão aí bem visíveis. Na terceira linha, a palavra “vôo” tem de ser pronunciada “vou”, senão complica. E pronunciar “rapitando” pode ser incômodo para alguns ouvidos, mas desde que no folheto a palavra esteja escrita direito, pode-se forçar um pouco a pronúncia e invocar licença poética. Deve-se observar também que a contagem das sílabas dos versos “acaba” na sílaba tônica da última palavra da linha. Desse modo, o número de sílabas gramaticais e de sílabas métricas de qualquer verso quase nunca coincide: as sílabas gramaticais são em geral bem mais numerosas.

 

Fonte: A Pedra do Meio-Dia ou Artur e Isadora – Literatura de Cordel, Bráulio Tavares.

 

Não é difícil à beça! Eu acho! E recitar direitinho é igualmente difícil. Acompanhe nesse vídeo a leitura das primeiras estrofes da história:

http://br.youtube.com/watch?v=vlhpltN12DU

 

Essa história é tão famosa que inspirou uma novela, que foi um sucesso na TV Globo nos anos 70. Há também uma música, do Edinardo, que é inspirado no cordel e por isso virou a abertura da novela. Escute-a nesse vídeo: a imagem que o acompanha é capa original do cordel.

http://br.youtube.com/watch?v=Yys1jxLUiZA

 

Um dia eu te conto um pouco dessa história, tá? E na próxima página também vou contar o que as crianças podem aprender a partir da leitura de cordel, indicarei algumas situações didáticas que ajudam a criança a ler e a escrever. Acompanhem!

 

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Por trás da leitura, um mundo a conhecer
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 1/6/2008 21:28

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Muitos professores pensam que só podem ensinar às crianças aquilo que já sabem. Mas, se aventurar a aprender para ensinar e, em muitos casos, aprender junto, pode se uma vivência das mais ricas não só para as crianças como para nós, professores.

 

Foi o que se passou comigo naquele projeto. Para ensinar às crianças eu precisei estudar, ler bastante, fazer um mergulho nesse universo e compartilhar no grupo de crianças não só o que eu vinha aprendendo, mas também minhas novas perguntas e minha curiosidade. Conhecer a linguagem dos cordéis foi o primeiro passo.

 

A linguagem e principalmente o vocabulário empregados no cordel são bem característicos da cultura nordestina e nem sempre acessíveis às crianças. Há um saber popular que se expressa nessas rimas ingênuas, nesse vocabulário cheio de imagens. Pena (ou sorte!) que nem tudo o que diz o cordel nós podemos entender. Esses termos regionais como “boca espumada”, “arriado”, “venta”, “marmota”, não estão no nosso cotidiano e muitas vezes nem mesmo no dicionário.

 

Esse nosso desconhecimento resultou num trabalho de pesquisa, cujo produto final foi o Dicionário das Palavras Difíceis do Cordel, que serviu para ajudar-nos a entender um pouco o universo do norte e nordeste do nosso país. Então, nossas fontes de pesquisa foram os dicionários de expressões regionais e alguns dos funcionários de nossa escola que tiveram contato com esses folhetos na infância ou pouco antes de vir para São Paulo e ainda guardavam na memória e no uso cotidiano muitas daquelas expressões. Eles nos ensinaram não só algumas palavras como também a cantar o cordel, já que nós não sabíamos.

 

A idéia de começar o projeto pelo cordel João Valente e o dragão da montanha, que é muito próximo da história de João e Maria, deu muito certo, pois asseguramos que dessa forma todos tivessem algo para conversar depois da leitura. As crianças perceberam que o texto trazia mudanças no cenário e nos detalhes da narrativa. Por exemplo, João e Maria não se perdem na floresta, e sim na vereda; João não joga migalhas de pão para marcar o caminho, e sim pipoca; não são os pássaros que comem os grãos, e sim Maria, para enganar a barriga.

 

Depois da primeira roda de leitura, as crianças se mostraram ainda mais curiosas. A hora de ler cordel era esperada com animação. Em pouco tempo as crianças já estavam mais familiarizadas com a leitura cantada e então podiam falar sobre as características das narrativas clássicas desde as primeiras sextilhas, apontando as alterações. A primeira delas é o jeito como se lê, acentuando os versos ou cantando de diferentes maneiras, a depender do ritmo que se quer imprimir às estrofes. Elas repetiam sempre: “Rimou!” “Tá rimando”, “Rima sempre?” “É, vai rimando”.

 

E quem conhece muitos cordéis e os lê todos os dias, também desenvolvem preferências. Um dos cordelistas favoritos das crianças era J. Borges. Ele se dedicou a escrever histórias curtas e muito divertidas, contando as confusões engraçadas que os personagens armavam. Muitos dos cordéis que Borges escreveu para as crianças trazem bichos como personagens, nos lembrando pequenas fábulas pitorescas.

 

J. Borges também é conhecido por suas gravuras. Nesses vídeos você pode saber um pouco mais sobre ele: no primeiro link você encontrará um documentário sobre o autor e no segundo, a história Davi contra os pau mandados de Golias, uma versão menos tradiconal, mas muito interessante, um hip hop ilustrado pelo mestre Borges.

 

http://br.youtube.com/watch?v=dQOtg_aV-I4

http://br.youtube.com/watch?v=CgvbUeFKadg

 

Você gostou do que viu? Então não perca as novidades desse blog, da próxima vez, postarei algumas orientações importantes sobre como se lê e como se ensina a ler o cordel.

 

Até lá!

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Como começar um trabalho com as crianças?
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 24/5/2008 17:54

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Os professores costumam discutir muito sobre como iniciar um projeto, como apresentar o tema e a proposta de trabalho às crianças: deve contar uma história? Construir um personagem que vai apresentar o projeto? Fazer um teatro? Conversar sobre o assunto? Perguntar o que as crianças já sabem e o que querem saber mais?

 

Eu sempre pensei que o melhor modo de iniciar um projeto é colocar as crianças em contato direto com o objeto de conhecimento que será estudado por elas. Assim, no caso do projeto de cordel, qual seria a primeira atividade, a que abriria as futuras sessões de estudo? Como poderíamos começar o projeto? Lendo um folheto, é claro.

 

Para iniciar, escolhemos a história João Valente e o Dragão da Montanha, uma versão de João e Maria transferida para o contexto do sertão. Fizemos essa escolha porque queríamos liberar as crianças do esforço de entender uma história nova para centrar a atenção nas peculiaridades do contexto e na mudança estrutural desse novo portador. Vocês já sabem, porque eu contei nas páginas anteriores, que o cordel é escrito em versos, seguindo diferentes padrões de estrofes e combinados de rimas. A poética do cordel resulta em um ritmo que deve ser recitado. As crianças de São Paulo, daquela comunidade, nunca tinham ouvido algo semelhante. Por isso, escolhemos com bastante zelo aquele que seria o primeiro folheto a ser recitado em nossa roda.

 

Como a história é longa, tivemos que contar em capítulos, pois queríamos que eles tivessem a versão original e não um reconto da professora. Nos importava mostrar a elas a preciosidade dos versos. Ao longo da história, era possível estabelecer semelhanças e diferenças que rapidamente eram identificadas. Vejam que interessante essa versão bem agreste dos irmãos João e Maria:

 

Entraram no mato adentro,

Porém João não cochilava:

Uma porção de pipocas

Ele escondido levava

Nos dois bolsinhos da velha

Calça suja que trajava.

 

O velho, puxando a frente

Com o machado era o guia

Seguido pela menina,

E João, atrás da Maria,

Marcava com as pipocas

A trilha que o pai abria.

 

Maria não entendia

Como sair do deserto,

Porém seguiu o irmão

Acompanhando de perto;

João, avistando as pipocas,

Seguia o caminho certo.

 

Tal como acontece na versão dos irmãos Grimm[1], aqui no folheto a bruxa também morre. Mas, a história ainda não acaba! Depois morte da megera, começa a parte mais fantástica da história. Quer saber o que acontece? Então, siga lendo:

 

Quando ela subir à tábua,

Que for começando o jogo,

Um de vocês se aproxima

Empurra a velha no fogo;

deixe que se vire em cinza,

Não atendam nenhum rogo.

 

Surgirão da cinza dela

Dois cachorros vigilantes

(duas feras verdadeiras) ,

Além de grandes, possantes,

Que servirão a vocês

Sempre em todos os instantes.

 

Cada cachorro terá

Para si mesmo um critério

No nome em que cumprirá

O seu compromisso sério,

Um será CONTRAVENENO

 E o outro QUEBRA-MISTÉRIO.

 

A primeira reação à escuta do cordel foi a gargalhada. Não é que eles achasse lá muito engraçado ... acho que era a sensação do estranho que eles queriam transmitir com as risadas. As crianças ouviam e riam muito, trocando olhares, surpresos com a novidade de ver os professores cantando daquele jeito pouco usual. Que coisa maluca é essa?

 

Muitas rodas de leitura se seguiram a essa, desse modo, ao mesmo tempo em que ampliávamos o repertório do grupo, também favorecíamos a construção da familiaridade necessária à escuta desse tipo de história.

 

É claro que nós, professores, tivemos que aprender a recitar o cordel: há vários modos de cantar e de acompanhar ao som da viola. Para saber conduzir a letra recitando-a, é preciso conhecer a métrica do cordel, como são construídos os versos, quais são as tônicas em cada verso, e do verso em cada estrofe. Tudo isso faz do cordel um divertido jogo de palavras, mas, principalmente, uma arte das mais sofisticadas, sobretudo no caso do repentista que não tem a história de memória, ao contrário, precisa improvisá-la.

 

Você gostou do assunto? Quer saber como se recita o cordel? Para conhecer mais sobre a poética dos folhetos e ouvir um pouco da viola e da voz dos repentistas, navegue por aqui.

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Literatura_de_cordel

http://www.ablc.com.br/historia/hist_cordel.htm (abra os vídeos!)

 

E se você, professor, gostou dessa idéia, pegue uma carona na nossa caravana! Comece lendo um cordel para as crianças e venha discutir seu projeto aqui no blog.

 

Boa viagem!



[1] Os irmãos Grimm foram os alemães Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859).

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Por que ler cordel?
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 20/5/2008 0:52

Casamento ou bicicleta? Isso ou aquilo? Escolher é difícil e às vezes dolorido e nós, professores, temos que lidar com esse problema a todo o momento. Sobretudo no momento de planejar o trabalho, quando decidimos os projetos e as demais propostas que faremos às crianças. Nessa hora é preciso escolher tendo em vista as prioridades, ou seja, o que as crianças precisam aprender.

 

Aprender a ouvir e a reconhecer a leitura de bons textos, a ler, a escrever e a aventurar-se nos mais diferentes usos da escrita são necessidades das crianças, sobretudo as que vivem nas cidades, que encontram a escrita em todos os cantos e, claro, querem compreendê-la. Mas, de todos os projetos que favorecem a alfabetização e o letramento, o que escolher?

 

Como eu estou contando, aqui nesse blog, como desenvolvi o projeto sobre o cordel, é claro que é dele que eu vou falar: escolhi esse assunto porque ele poderia criar um contexto especialmente interessante para cobrir as necessidades de aprendizagem daquele grupo de crianças. Vejam só quantas vantagens esse conteúdo apresenta:

 

  • o repertório é vasto e interessante;
  • os textos são diferentes, mas, ao mesmo tempo, familiar, as crianças reconhecem conhecem muitas das histórias, pelo menos os contos clássicos que possuem versões regionalizadas (posso dar as dicas, para quem quiser!);
  • é um texto que se sabe de memória e se acompanha no livreto escrito, o que cria uma condição de aprendizagem das mais importantes para a criança;
  • as histórias são escritas em forma de versos, o que graficamente é útil para a criança que procura ajustar o falado ao escrito;
  • é um trabalho que aproxima a expressão da oralidade à escrita, dando vida a ela;

 

Mas, cá entre nós, apesar das qualidades todas que eu pude enumerar para vocês, caros leitores, o que fez desse trabalho ser tão mais interessante do que tantos outros que eu poderia ter desenvolvido foi o meu gosto pelo tema. Eu gostava do assunto, estava curiosa e tive que pesquisar muito não só para ensinar às crianças, mas porque eu gostava de aprender tudo aquilo.

 

E você, leitor, ainda não se animou, a saber, mais sobre isso? Ah, pois então veja esse documentário sobre o cordel, conheça um dos maiores cordelistas vivos, J. Borges, aprecie a arte das gravuras e veja se isso dá ou não dá um bom caldo para a sala de aula.

 

http://br.youtube.com/watch?v=4xuzg51HzzQ&feature=related

http://br.youtube.com/watch?v=1LifqwwRTYA&feature=related

 

E me conte tudo, depois! O que você imagina que podemos vivenciar com as crianças nesse projeto?  

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Você conhece literatura de cordel?
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 13/5/2008 11:05

No Brasil ainda há comunidades que pensam o mundo, que se expressam e transmitem conhecimentos seguindo a lógica própria da oralidade. Há histórias de índios, de pescadores, de avós, histórias de famílias e tantas outras. Nas regiões do norte e nordeste do Brasil e mesmo em São Paulo, podemos encontrar uma modalidade de expressão literária de tradição oral que acolhe muitos gêneros diferentes. É a literatura de cordel.

 

O cordel provém da antiga tradição ibérica dos romanceiros, contadores das histórias de Carlos Magno e outras populares. Nas páginas dos “folhetos”, dos “ABCs”, como também são conhecidos os livrinhos de cordel, encontramos antigas histórias que vieram migrando e sendo modificadas ao sabor do contador local, que tratava de imprimir os toques da sua cultura. Assim, os clássicos contos de fadas, as Fábulas de Esopo, contos de animais encantados, de assombração, bem como os “causos” e pelejas foram ganhando características muito peculiares na voz daquele que contava ou cantava as estrofes, acompanhado da viola. As narrativas que o cordel guarda, são sempre ditas de memória ou cantadas, quase sempre acompanhadas por uma viola. Essas histórias atravessam gerações cantadoras, até ganharem a forma gráfica, impressas em papel jornal, em tamanho pequeno, acompanhadas de gravuras feitas em geral pelo próprio autor do registro.

 

O autor e estudioso de cordel, Bráulio Tavares, na introdução de seu livro A Pedra do Meio-Dia ou Artur e Isadora, descreve com mais rigor as características desses folhetos. Ele diz:

 

“Um folheto de cordel é um livro pequeno (geralmente 16cm x 10 cm) e muito fino (a maioria tem 8, 16 ou 32 páginas). É impresso em papel barato, e nas capas aparecem xilogravuras (gravuras entalhadas em madeira), reproduções de cartões-postais antigos, ou fotos mostrando cenas de filmes.

 

Em geral, os folhetos são narrados em versos chamados ‘sextilhas’. A sextilha tem um esquema fixo de rimas; na transcrição de versos, costuma-se usar um sistema de notação onde cada letra equivale a uma linha da estrofe. A sextilha, portanto, usa o esquema que é chamado da ABCBDB. Portanto, a segunda, a quarta e a sexta linha rimam entre si, e as demais não. Alguns autores usam outra notação, e descrevem esse esquema de rimas como XAXAXA, onde o ‘X’  indica as linhas que tem rima livre, e o ‘A’ as linhas que rimam entre si.

 

Quando os violeiros repentistas estão “trocando sextilhas” durante uma cantoria, existe a obrigação de “pegar a deixa”, ou seja, a primeira linha do verso, em vez de ter rima livre, tem que rimar com a rima principal (linhas 2,4 e 6) do verso do oponente. Nos folhetos narrativos, isso não acontece. O escritor tem apenas a obrigação de rimar a linha 2, 4 e a 6.”

 

Ainda hoje há grupos que se preocupam com a divulgação do cordel e que o imprimem, reimprimem, editam-nos com uma nova roupagem, tudo para permitir um convívio harmonioso das duas linguagens, a oral e a escrita. Hoje em dia, tem cordel até na Internet! Quer conhecer? Veja essas fontes:

 

http://br.youtube.com/watch?v=vlhpltN12DU

http://br.youtube.com/watch?v=2p7gMAPwcaU&NR=1

 

Mas o que isso tem a ver com as crianças e as coisas de professores?

 

A leitura e a apreciação de literatura de cordel foi um dos últimos projetos que eu desenvolvi, quando era professora. E, nas próximas páginas, vou contar como o desenvolvi e o que hoje eu penso sobre esse assunto.

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Como tudo começa
Blog - Projeto de cordel Por Sil Augusto on 9/5/2008 12:22

Primeiro dia do blog. Tela em branco. O que será que eu escrevo? O que será desse meu primeiro parágrafo de vida curta, mas tão curta, que... olha só, já acabou.

 

Não é fácil decidir um assunto sem conhecer meus leitores. Mas, sendo um diário – um blog é um diário, não é –, eu posso escrever sobre o que eu quiser. E eu queria falar sobre a infância, as idéias das crianças e o que os adultos pensam sobre elas. Ou, quem sabe, escrever sobre as escolas e os professores que tenho conhecido nos últimos anos, trabalhando como formadora. Poderia, ainda, apresentar os livros que tenho lido e que estão fazendo a minha cabeça. Poderia falar sobre a situação da avaliação no Brasil, quem sabe fazer um levantamento dos municípios, comparar resultados... poderia falar de muitos assuntos.

 

Mas, quando meu cursor se posicionou bem aqui, onde começa meu terceiro parágrafo, o coração bateu junto com as teclas: como sou uma professora, escolhi escrever sobre coisas de professor, a sala de aula e as aprendizagens infantis. Vou escrever sobre coisas de professora, das salas de aula que eu me lembro com carinho, das histórias às vezes divertidas, outras tristes, curiosas, pitorescas. Histórias que me fizeram aprender sobre as crianças, saber mais sobre minha profissão e pensar mais em mim mesma. E espero que nos comentários de meus leitores, eu encontre mil outras histórias que me façam pensar, se tornando, então, coisas compartilhadas entre nós.

 

Último parágrafo: não vejo a hora de ler os comentários!

Comentários (6)

   
   
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