Ana Maria Kaufman - 12/01/2007

Centro de Referência em Educação Mário Covas

Professora de Psicologia e Epistemologia da Universidade de Buenos Aires, pesquisadora do Programa Escuelas para el Futuro da Universidade de San Andrés e assessora da área de Língua do Colégio Alas de Palomar. Há dez anos, pesquisa sobre a construção de resumos escritos.

>> Qual é o objetivo do ensino de Língua?

ANM>> Incorporar as crianças à comunidade de leitores e escritores. Isso não significa que todas serão escritoras de livros, mas que serão capazes de ler e escrever adequadamente os textos de que necessitam na sua vida, como um jornal, uma carta, um manual de instruções... Acredito que a única forma de se alcançar isso é ver a leitura e a escrita como práticas sociais. Ensinadas de forma solta, as letras, as palavras e as normas gramaticais não servem para formar leitores e escritores. Essas coisas apenas têm sentido quando estão incluídas em situações de leitura e escrita. Por exemplo: o aluno está elaborando um texto e sente necessidade de alguns recursos de linguagem para não repetir uma palavra. Está aí uma ótima oportunidade para introduzir os pronomes e sinônimos.

>> As escolas supervalorizam a gramática, na sua opinião?

ANM>> Na Argentina, sim. Lá, a partir da quarta série, a aula de Língua costuma ser dedicada ao ensino da Gramática e da Ortografia. Estamos tentando reverter isso e mostrar ao professor que, ao ensinar noções gramaticais, ele não está necessariamente ensinando a ler e a escrever. É claro que as crianças têm de ter esses conhecimentos, mas eles devem ser adquiridos de outra forma, subordinados às práticas de leitura e escrita. Isso significa criar, desde as séries iniciais, situações reais em que se vejam práticas permanentes de leitura e escrita e, a partir dessas situações, ir aprofundando diferentes subdomínios lingüísticos - que têm a ver com a gramática, com a ortografia, com a lingüística.

>> Mas os professores têm uma grande dificuldade para trabalhar dentro dessas "situações reais", e conseqüentemente, para dar sentido aos textos...

ANM>> Essa não é, realmente, uma tarefa tão fácil. Porque é preciso incluir os textos em situações comunicativas reais e que tenham um destinatário preciso. Muitas vezes é difícil encontrar uma situação adequada, sem que ela se torne artificial. Principalmente pela dificuldade de se encontrar um destinatário.

>> Como resolver esse problema?

ANM>> Acredito que a melhor saída está no intercâmbio entre os professores, não só dentro de uma mesma escola mas, também, entre escolas, através de portais como este do C_R_E, por exemplo. Assim eles podem trocar experiências e até desenvolver projetos em conjunto. Às vezes, um professor tem uma idéia maravilhosa e os outros não ficam sabendo.

>> Qual a sua opinião sobre os exercícios de cópia que muitas escolas ainda praticam?

ANM>> Se pensamos que o objeto de ensino são as práticas sociais de leitura e escrita - e colocamos isso como um fio condutor através de toda a vida escolar -, então a cópia deve ser também uma "cópia social". Se eu vejo um texto de uma receita que quero fazer em casa e não tenho o livro, então a copio. Se quero ter uma letra de uma música, copio de alguém que tenha o disco. Assim, quando o aluno faz a cópia para obter um texto que não possui, não há problema, pois se trata de uma situação real. O que não faz sentido é copiar simplesmente para fazer letras. Isso não implica em nenhuma aprendizagem.

>> Do ponto de vista da cognição e metacognição, os elos entre o ato de ler e o de escrever são indissolúveis? É possível ensiná-los de forma separada?

ANM>> A leitura e a escrita são processos diferentes, mas complementares. Quando você faz uma pesquisa, por exemplo, está lendo e ao mesmo tempo resumindo, tomando notas. Mas essa ligação não é obrigatória. Podem existir situações apenas de leitura quando se trabalha com literatura, por exemplo. Nesse caso, a pessoa não lê para escrever, mas simplesmente para desfrutar da leitura. O difícil é pensar o contrário: que é possível escrever sem haver participado de situações de leitura. Porque só se pode produzir uma linguagem escrita depois de ter tido muito contato com essa linguagem, o que se dá por meio da leitura.

>> Existe uma idade certa para começar a alfabetização?

ANM>> Minha neta já começou e tem um ano e três meses. Ela folheia livros, faz rabiscos, vê letras nas placas de rua. Digo isso porque entendo que alfabetizar não é colocar a criança para repetir letras e fonemas, mas fazer com que ela participe do mundo letrado e de situações reais de leitura e escrita. Partindo dessa perspectiva, quanto mais cedo começa o processo, melhor.

>> Emília Ferreiro disse certa vez que o que se espera de um leitor muda com o tempo. O que se espera do leitor hoje, diante de um mundo onde as informações estão disponíveis em quantidade por todas as partes?

ANM>> Ser leitor hoje em dia não implica em uma determinada habilidade, mas em múltiplas habilidades. Uma coisa é ser leitor de literatura e outra é ser um leitor de jornais, assim como outra coisa bem diferente é saber ler e escrever por e-mail. Alguém pode ser um ótimo leitor de literatura e não conseguir fazer uma leitura adequada das informações da Internet, por exemplo. As pessoas da minha geração entendem isso muito bem. Por isso é importante que as crianças tenham acesso a todas as possibilidade de leitura. É claro, que, num mundo tão complexo como o que vivemos, o professor tem de priorizar algumas modalidades textuais, porque nunca conseguirá trabalhar bem com todas elas.

>> O que a senhora pensa sobre a escrita nos grupos interativos da Internet? O que esse meio possibilita em termos de aquisição e desenvolvimento de conhecimento e competências?

ANM>> Isso é outra leitura e outra escrita. Na verdade, penso que é uma outra forma de comunicação, que usa uma linguagem que oscila entre a escrita e a oral, sem trabalhar com propriedade nenhuma das duas. Não acho que seja um objeto de ensino escolar, porque não acredito que se possa aprender alguma coisa com isso. Ninguém será um melhor leitor ou produtor de textos por causa dessa prática.

>> Como motivar os alunos para a leitura de literatura?

ANM>> Em primeiro lugar é preciso entender que dar livros às crianças não significa formar leitores. Para formar leitores, o professor tem de gostar de literatura e compartilhar esse prazer com as crianças, ler com elas, discutir sobre o conteúdo do texto... Nesse processo é importantíssimo que o mestre não apenas dê textos para que os alunos leiam sozinhos em casa, mas que leia com eles na sala de aula. Ler em voz alta é algo que se deve fazer sempre, com turmas de todas as idades. Porque não se forma leitores solitários. Forma-se uma comunidade de leitores.

>> Alguma sugestão final para os professores de Língua?

ANM>> Que leiam muito. E que leiam com seus alunos. Para os menores, os médios e os mais velhos.

(por Priscila Ramalho)